O que é a amebíase

Imagine uma doença que pode ser silenciosa, passando despercebida por meses ou até anos, mas que também tem o potencial de ser devastadoramente fatal. 

Essa é a amebíase, uma infecção causada por um parasita que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é a segunda principal causa de morte por doenças parasitárias em todo o mundo

Nos Estados Unidos, por exemplo, inclusive, tornou-se a infestação parasitária mais comum encontrada por cirurgiões.

O protozoário Entamoeba histolytica

O grande responsável por essa condição é o protozoário Entamoeba histolytica

Ele existe em duas formas principais:

Como a Amebíase se espalha

A principal forma de transmissão é a ingestão de cistos de alimentos ou água contaminados.

Uma vez ingerido, o cisto se desintegra no intestino delgado e libera os trofozoítos no cólon.

Mas aqui vem um ponto de atenção importante: a amebíase está reemergindo em países desenvolvidos como uma infecção sexualmente transmissível (IST)

A transmissão sexual ocorre principalmente através da rota fecal-oral, como em práticas sexuais oral-anais, e é um risco documentado em populações de homens que fazem sexo com homens (HSH) na América do Norte e Europa, com incidência relatada de 20% a 30%. 

Isso significa que a história sexual é tão importante quanto a história de viagens ao suspeitar de amebíase.

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Regiões de maiores prevalência

Historicamente, a amebíase é endêmica nas regiões tropicais e subtropicais, como México, América Central e do Sul, Índia e África, onde o saneamento é precário e as barreiras entre fezes e suprimentos de alimentos/água são limitadas.

No entanto, em países desenvolvidos, tem havido um aumento de casos domésticos, especialmente como uma IST. 

Em alguns desses contextos, a proporção de casos de transmissão doméstica chegou a 85%.

Sintomas

A amebíase pode se manifestar de várias formas, desde casos totalmente assintomáticos até condições graves e potencialmente fatais.

1 – Portadores assintomáticos

A maioria dos infectados não apresenta sintomas. O organismo vive no lúmen intestinal e libera cistos nas fezes. 

Apesar de assintomáticos, eles são um reservatório de infecção e têm o potencial de desenvolver a doença invasiva (entre 4% e 10% deles). 

Por isso, o tratamento para esses indivíduos é vital.

2 – Amebíase intestinal

A apresentação clínica varia de episódios leves e intermitentes de diarreia com sangue a uma colite fulminante e perfuração do cólon.

Sintomas comuns incluem dor abdominal (cólica), perda de peso, desidratação e anorexia. A febre é menos comum (<40% dos pacientes).

Os sintomas podem persistir por meses a anos, com intervalos assintomáticos.Pode mimetizar outras colites, como a colite ulcerativa, ou até mesmo apendicite. A falha em considerar a amebíase no diagnóstico diferencial pode levar a complicações catastróficas.

Formas severas e menos frequentes incluem:

3 – Amebíase extraintestinal

Abscesso Hepático Amebiano: é a manifestação extraintestinal mais comum. Geralmente afeta homens adultos jovens (entre 18 e 50 anos) com taxas 3 a 20 vezes maiores do que em outras populações.

Os sintomas incluem dor no quadrante superior direito do abdômen (que pode irradiar para o ombro ou tórax direito), febre, sudorese noturna, mal-estar e anorexia.

O fluido do abscesso é tipicamente marrom-chocolate ou lembra ketchup e é estéril. As complicações incluem a ruptura do abscesso para o tórax (produzindo empiema), para o pericárdio (com alta mortalidade de 30%) ou para o peritônio.

Abscessos Cerebrais Amebianos: são raros, mas apresentam início súbito de sintomas como dor de cabeça, convulsões, vômitos e alterações do estado mental, com progressão rápida para a morte.

Outras manifestações raras: 

Diagnóstico

O diagnóstico da amebíase pode ser desafiador, especialmente porque é crucial diferenciar E. histolytica de sua contraparte não patogênica, Entamoeba dispar.

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Tratamento

É fundamental ressaltar que todas as infecções por E. histolytica precisam ser tratadas devido ao risco de disseminação e complicações extraintestinais.

Medicamentos principais

A base do tratamento são os derivados de nitroimidazol, como o metronidazol.

Abscessos Hepáticos Amebianos 

A maioria dos pacientes responde bem à terapia com metronidazol. A drenagem cirúrgica ou percutânea não é geralmente necessária em casos não complicados e deve ser evitada. 

No entanto, a aspiração pode ser considerada para abscessos grandes (>300 cm³), falha do tratamento médico, ou abscessos no lobo esquerdo do fígado (pelo risco de ruptura para o pericárdio).

Colite Fulminante/Peritonite

Pacientes com colite necrotizante fulminante ou sinais de peritonite requerem antibióticos de amplo espectro e, muitas vezes, intervenção cirúrgica, como a ressecção do cólon necrótico. É uma condição de alta mortalidade.

Prevenção

A prevenção da amebíase gira em torno de práticas de higiene e saneamento, mas também de conscientização sobre as novas rotas de transmissão:

A amebíase é um desafio de saúde pública complexo, que se adapta e reaparece em novos contextos. Seja por água e alimentos contaminados ou, crescentemente, como uma infecção sexualmente transmissível em países desenvolvidos, a doença representa um risco significativo.

A conscientização de médicos e pacientes, o diagnóstico precoce (especialmente com o uso de PCR para diferenciar E. histolytica da E. dispar e identificar assintomáticos), e o tratamento adequado são as chaves para controlar a disseminação, prevenir complicações graves e, em última análise, salvar vidas. 

Fique atento aos sintomas e, em caso de dúvida, procure um profissional de saúde!

Perguntas frequentes 

A amebíase é contagiosa?

Sim. A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água e alimentos contaminados por fezes contendo cistos do parasita, mas também pode acontecer por contato sexual (via fecal-oral).

Quais são os principais sintomas da amebíase?

Os sintomas variam de assintomáticos a graves, incluindo diarreia com sangue, dor abdominal, perda de peso, febre e, em casos mais severos, abscessos no fígado.

A amebíase tem cura?

Sim. Quando diagnosticada corretamente, a amebíase pode ser tratada com medicamentos como o metronidazol e agentes luminais que eliminam os cistos.

Qual exame detecta a amebíase?

Os principais exames incluem análise de fezes, testes de antígenos, sorologia e PCR, sendo este último o mais preciso para diferenciar espécies de Entamoeba.

Como prevenir a amebíase?

A prevenção envolve higiene rigorosa, consumo de água tratada ou filtrada, cuidado com alimentos crus e adoção de práticas sexuais seguras.

Existe vacina contra a amebíase?

Não. Até o momento, não existe vacina disponível, sendo a prevenção baseada em hábitos de higiene e diagnóstico precoce.

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Fontes consultadas