O comportamento de apostas vem se consolidando como um fenômeno de alta relevância no Brasil nos últimos anos, impulsionado pela ampla oferta de jogos e pela crescente presença de plataformas digitais.
Nesse contexto, compreender a prevalência, os fatores de risco e os impactos sobre a saúde mental é fundamental para orientar políticas públicas eficazes.

O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)  em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD), fornece evidências inéditas sobre jogos de azar no país, oferecendo um retrato detalhado da situação atual.

Panorama atual: dados de prevalência no Brasil

O LENAD III entrevistou 16.608 brasileiros com 14 anos ou mais, incluindo uma subamostra de 4.914 pessoas dedicada a jogos de apostas

Veja abaixo alguns dos principais resultados encontrados na pesquisa

O perfil do apostador também chama atenção: 64,8% são homens e 35,2% mulheres, com predominância na faixa etária de 25 a 49 anos (50,6%).

Entre adolescentes (14 a 17 anos), 10,5% já apostaram no último ano, mesmo após a proibição legal sancionada em 2023, o que equivale a cerca de 1,4 milhão de jovens expostos precocemente.

Quando o lazer se transforma em risco: dependência psicológica

O Transtorno do Jogo (TJ) é reconhecido como dependência comportamental no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – quinta edição (DSM-5). Diferente das adições químicas, não envolve substâncias psicoativas, mas apresenta elementos semelhantes: perda de controle, compulsividade e sofrimento emocional.

O LENAD III utilizou a escala internacional PGSI (Problem Gambling Severity Index) classificando os apostadores em quatro níveis: sem risco, baixo risco, risco moderado e jogo problemático.

Resultados:

Os sinais mais frequentes incluem:

Perfil sociodemográfico: renda, escolaridade e região

Esse contraste mostra um desequilíbrio regional: no Nordeste, menos pessoas apostam (16,3%), mas a proporção de jogadores problemáticos é a mais alta.

Endividamento e impacto financeiro

Entre os apostadores que jogaram no último ano:

Durante a pandemia, 70% dos apostadores disseram que seus gastos não mudaram, 15,7% pararam de gastar, 9,8% diminuíram e 2,6% aumentaram os gastos.

A força das plataformas digitais

Isso mostra que as características das plataformas digitais, facilidade de acesso, repetição rápida e sensação ilusória de controle, favorecem padrões compulsivos.

Comparação internacional

O LENAD III adotou a escala PGSI, o que permite comparações globais.
Na Espanha, por exemplo, dois anos após a legalização das apostas online, a prevalência de Transtorno do Jogo entre jovens subiu de 3,8% para 16%.
O cenário brasileiro segue a mesma tendência internacional de rápida expansão e aumento dos comportamentos de risco.

Impactos na saúde mental

O comportamento problemático com jogos está diretamente ligado a:

Os grupos mais vulneráveis são:

Estratégias de prevenção e políticas públicas

O LENAD III destaca a necessidade de políticas amplas, que vão além do discurso de “jogo responsável”:

Considerações finais

O LENAD III revela que os jogos de azar deixaram de ser uma prática marginal para se tornarem uma realidade consolidada na vida de milhões de brasileiros.
Com mais de 28 milhões de apostadores ativos no último ano, sendo 10,9 milhões em risco e 1,4 milhão já com critérios clínicos, o impacto é profundo e exige respostas imediatas.

A regulação do setor, a ampliação do cuidado em saúde mental e a criação de campanhas educativas são medidas urgentes para reduzir os danos.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD)?
É uma pesquisa nacional da UNIFESP, feita por entrevistas domiciliares, que avalia o uso de álcool, drogas e comportamentos aditivos como jogos de aposta.

Quantos brasileiros estão em risco com jogos de azar?
Cerca de 10,9 milhões de pessoas (7,3% da população com 14 anos ou mais). Aproximadamente 1,4 milhão já se enquadra nos critérios clínicos de Transtorno do Jogo.

Quais grupos são mais vulneráveis?
Adolescentes, pessoas de baixa renda e usuários de plataformas digitais, todos com índices acima de 50% de risco.

Qual a situação regional?
O Sul tem mais apostadores, mas menos casos problemáticos. O Nordeste, ao contrário, tem menos apostadores, mas a maior proporção de risco (52,3%).

Como isso se compara a outros países?
Na Espanha, após a legalização das apostas online, os jovens com transtorno do jogo passaram de 3,8% para 16% em apenas dois anos. O Brasil segue tendência similar.

FonteLENAD – Levantamento Nacional de Álcools e Drogas (Jogos de apostas na população brasileira)